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1ª Seminário Internacional de Enfermagem de Saúde Mental

Lisboa 2024 Tempos de Crise – 17-18 de abril 2024. Escola Superior de Lisboa.

Key Speaker: Professor Doutor João Hipólito

Uma procura de sentido para a crise

Tendo sido convidado para abordar o interessante e importante tema, “Uma procura de sentido para a crise, (em particular na perspetiva existencialista)”, comecei por refletir sobre que ângulo abordar este assunto tão complexo. Certamente esperava-se de mim uma abordagem muito científica e especializada, bem documentada na literatura técnica específica, num tema atual e de grande importância.

O primeiro autor que se impôs ao meu espírito foi Victor Frankl, grande teorizador das neuroses noogénicas. O seu extraordinário trabalho Em busca de Sentido, livro simultaneamente técnico, mas também de partilha das terríveis experiências que vivera nos campos de concentração nazis, onde grande parte da sua família pereceu, continua a ser uma referência incontornável no campo do pensamento humanista. Com o seu trabalho e a sua experiência pessoal, Frankl desenvolveu uma abordagem terapêutica a que chamou Logoterapia, simultaneamente psicoterapia e filosofia de vida, na perspetiva existencialista que me era sugerida.

Na leitura da sua partilha e na procura dos significados de sentido e de crise, fui derivando ao longo das semanas e dos meses. O convite viera com o início do ano, naquela altura em que costumamos fazer balanços e procurar sentidos, através dos “sentidos” e das “crises”.

Crises, vivemos rodeados de permanentes crises e mergulhados em permanentes crises. A nível pessoal, desde as crises de crescimento às crises existenciais, as da adolescência, da entrada na idade adulta, da meia-idade, da senescência e tantas outras; as da sociedade, as ecológicas e até as do planeta, do sistema solar e do universo, que, apesar de estarem distantes alguns milhares de milhões de anos, inquietam terrivelmente alguns, mas menos a maioria.

Regularmente encontramos textos clássicos que nos relembram que as crises de valores e as crises nas sociedades se repetem regularmente ao longo dos séculos. Numa altura de grande crise entre 200 e 400 a.C., numa região do Médio Oriente, onde hoje de novo, numa terrível e hedionda crise, todos os valores ditos humanistas são espezinhados, o Pregador clássico da Tanak, livro sagrado da religião judaica, anunciava:

“O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol.” (Eclesiastes 1:9)

Parece que a capacidade para manter indefinidamente o equilíbrio, a homeostasia, é limitada e, a mais breve ou longo prazo, é inevitável a evolução para a crise ou a lise. Como escrevia o Pregador:

“O que se fez, se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol.”

Poderíamos talvez pensar que, se cada crise é única — seja ela existencial, da puberdade ou do “ninho vazio”; seja sócio-político-noética e cultural —, é como a íris ou o ADN, irrepetida e irrepetível. Haverá, todavia, padrões que se repetem, preenchidos com conteúdos que, tomando existência, se tornam a sua essência específica e diferenciadora.

Perante esta ciclicidade afirmada pelo Pregador da Tanak há cerca de 23-24 séculos, e confirmada pela observação da história da humanidade, interrogamo-nos sobre as razões das perturbações cíclicas da homeostasia, levando às situações de crise e de lise.

O novo Pregador hodierno do ChatGPT, tal como o personagem Autodidata na Náusea de Jean-Paul Sartre, que sabia tudo o que a Enciclopédia continha até à letra L, também tem limitações na amplitude do conhecimento. Mas, apesar de tudo, parece saber muito e está na moda interrogá-lo, como se interrogava nos tempos clássicos gregos a Pitonisa de Delfos ou, mais recentemente, as profecias do Bandarra.

Interpelei-o, portanto, e, segundo me informou, os seus dados e informações só vão até setembro de 2021 (informação atualizada às 16:39 do dia 12/04/2024), mas elucidou-me e cito:

“Embora seja possível manter a homeostase por períodos prolongados, existem limites para essa capacidade e certas perturbações podem levar à evolução para a crise ou para a lise.”

Aparentemente, existem limites a uma homeostase eterna, a não ser conceptualizada como Nirvana, tal como Freud sugeria em consequência de Tanatos, o companheiro de Eros, numa das formulações tardias, mas brilhantes, que propôs.

A homeostase implica um para quê, um sentido, que, perdido, leva na lise à entropia e ao movimento browniano final no repouso nirvaniano ou, na crise, à explosão no Eros que amalgama a morte e a vida. Como no encontro sexual em que a fêmea mata e come o macho no momento crítico do acasalamento, como nesse estranho animal que, curiosamente, dá pelo nome de louva-a-deus…

Quais são esses limites? Quais são essas perturbações que podem levar à evolução da homeostase para a crise ou para a lise? Estavam eles inscritos à partida no código do sistema? Temos controlo sobre eles? Somos responsáveis por eles? Em que medida podemos ser alheios ao funcionamento do sistema em que estamos inseridos?

Frankl assinalava a grande frequência na nossa sociedade das perturbações a que dera o nome de neuroses noogénicas, em que a ausência de sentido era fonte de ansiedade, de depressão, de renúncia à vida. Muitas vezes, uma perda de sentido que se instalara sem se fazer notar, sem alarido, numa perda progressiva de contacto com um sentido preexistente que se esvanecera.

Mas, concretamente, como é que, em cada um de nós, esta ciclicidade se exprime? Como é que a homeostasia se rompe? Como é que a crise se instala? Como é que cada um de nós mobiliza e cria a essência do seu próprio existir em crise e encontra sentidos?

Podemos continuar a tentar compreender o fenómeno em si, visto do exterior, como “cientistas sociais” que todos, mais ou menos, somos na área da saúde e do cuidado, mas podemos também olhar para o para si: como é que eu vivo esta situação e o que, na minha experiência, pode ser partilhado?

Nasci numa família cristã evangélica, com um pai pastor carismático. Muito cedo aprendi que tudo na vida tinha um sentido e que tudo estava escrito num Livro. Aprendi rapidamente a ler para ter o código. Tudo estava previsto no Livro, mas o Livro não estava escrito no meu código pessoal, estava escrito numa língua que tentei aprender, mas da qual só me restam hoje palavras esparsas. Até que compreendi que era um poema que me informava, formava, mas não me aprisionava, e que por Ele tivera acesso a todos os livros do mundo.

À medida que tive acesso a outros livros, a outros intérpretes do Livro e a outros intérpretes de outros livros, fui tentando interpretar esse outro livro que era eu, em construção. Tentei compreender um mundo interior e um mundo que me envolvia, que cada vez mais desmoronava as minhas certezas e trazia incongruências, crises de fidelidade: fidelidade aos intérpretes, fidelidade ao Livro e aos livros, fidelidade a mim mesmo, ao meu sentir, às minhas necessidades de ser aceite, amado e compreendido mesmo na minha confusão e incompreensão. Entrei em crise.

O Livro deixara de ser a fonte de todo o Sentido. A crise da adolescência, diriam alguns. O desconforto de pertencer a uma minoria religiosa, nessa época ainda discriminada, a um grupo socioeconómico desfavorecido, por escolha que não era minha, mas que não me era pesada. Sempre na procura de um caminho, de um sentido que me apaziguasse um mal-estar a que não sabia dar nome.

Na Faculdade, falei com um assistente. Deu-me um livro: O treino autogéneo de Schultz, para, em autoterapia, cuidar da minha ansiedade. Em casa de um colega, cujo pai anestesista tinha uma riquíssima biblioteca, encontrei um outro livro: as obras completas de Freud, em papel bíblia, traduzidas em espanhol. Esse foi uma das minhas primeiras aquisições quando tive dinheiro. Li-o de fio a pavio, com o mesmo entusiasmo com que tinha lido as Sagradas Escrituras, à procura de um sentido.

Fui tentando dar um sentido à asfixia que sentia, à angústia, face ao futuro e, sobretudo, face àquele futuro que inevitavelmente um dia viria e que o Livro dizia não seria apaziguador.

Entretanto, fui encontrando outros livros que despertaram a minha atenção. Um prelado dinamarquês escrevera um livro sobre o Conceito da Angústia. Interessou-me muito. Pertencia à minha área religiosa, mas, para mim, a angústia não era um conceito, era uma dor.

Ainda como estudante de Medicina, fui trabalhar uns meses para a Suécia, num hospital psiquiátrico. Na biblioteca local, descobri um livro de Sartre: Les Jeux Sont Faits. Pouco a pouco, comecei a sentir-me mais responsável pelas minhas próprias escolhas e pelo meu próprio destino.

Nesse guião para um filme, Sartre cria o personagem de um homem que, tendo uma segunda possibilidade de viver, se poderia realizar num amor que em vida não encontrara. Contudo, sacrifica essa possibilidade num momento de empenho de luta política. O homem é responsável pelas suas escolhas. Não escolhe ser corcunda, mas escolhe o que faz da sua corcunda. O Pierre, de Sartre, prefere morrer definitivamente a falhar o seu compromisso. La Liberté n’a de sens que pour être engagée. Gostei de Sartre, mas prefiro Kierkegaard e Gabriel Marcel. Hoje, creio que a Morte não é o Fim.

Passei com uma imensa angústia pelo Serviço Militar Obrigatório. Não era um conceito, era uma realidade oprimente. A escolha que poderia a qualquer momento vir a ser a minha era: matar ou ser morto. Estava-se em guerra. A minha escolha foi andar desarmado, pela possibilidade que um dia me foi oferecida.

Escolhi ao mesmo tempo dar um sentido à minha vida que passava por participar na construção de um país novo, de uma Universidade Nova, que foi a minha Alma Mater, onde me licenciei e desenvolvi, futuramente, um serviço universitário pedopsiquiátrico de qualidade.

De novo civil e de passagem por Lisboa, com o apoio do Professor Barahona Fernandes, que facilitou a minha ida para a Suíça para continuação da formação académica e profissional, encontrei o Professor Carlos Caldeira. Ele ajudou-me a criar confiança nas capacidades das pessoas e dos grupos, com vista à atualização das suas potencialidades. Introduziu-me à prática da psicoterapia centrada no cliente e, juntamente com o Professor Barahona, à praxis da Comunidade Terapêutica.

Voltou a ser questão do sentido. Que sentido para a vida, para a minha vida? Com eles, e sobretudo com Caldeira, que me introduziu ao pensamento de Carl Rogers, fui convidado a uma metanoia: deixar de procurar o sentido que o livro — qualquer que ele fosse, Freud, Jung ou outro — desse ao sintoma da pessoa que sofria e pedia ajuda, para, com ela, procurar o significado que esse sintoma tinha para si, na sua história de vida e no seu existir.

Deixar de procurar o sentido que o livro — qualquer que ele fosse, Marx, Gurvitch, Moscovici, Durkheim — dava à vivência da comunidade, do grupo, para procurar, com ele, esse mesmo sentido e o caminho a seguir. Vi-o não só ao nível teórico, mas no acompanhamento de clientes em psicoterapia individual, acompanhado em supervisão de grupo, com Caldeira e a sua equipa. Vi-o com o Professor Barahona na criação da Comunidade Terapêutica no Hospital Psiquiátrico. Vi-o com Caldeira no seu trabalho extra-hospitalar, tão minuciosamente descrito na sua tese de doutoramento.

Vivenciei a diferença, já em formação como futuro psiquiatra, na Suíça. Nesse país, o psiquiatra tem de fazer formação em Psicoterapia. Durante vários anos, regularmente, três vezes por semana, com uma psicanalista — ela mesma analisada por um analisado por Freud —, procurei um sentido para o meu mal-estar, para os sintomas que me incomodavam, na minha vida e no meu futuro pessoal e profissional.

Ajudou-me muito. O meu sucesso profissional e académico dos anos 70 e 80 foi o resultado desse trabalho conjunto. Mas aquele não era o meu sentido, era um sentido possível e heuristicamente funcional.

Posteriormente, fui encontrando, no meu percurso de vida, pessoas e situações que me foram ajudando a encontrar o meu sentido. Algumas dessas pessoas eram grandes profissionais, vindos, aliás, de escolas diferentes — desde o quadrante existencialista e fenomenológico-existencial, em que agora me situo, como Carl Rogers e alguns dos seus colaboradores próximos, até aos psicanalíticos, que me acompanharam sobretudo no início do meu caminhar, como René Diatkine, Michel Sapir e René Henny. Mas, sobretudo, os meus clientes e colaboradores, ao longo dos anos, quer na prática clínica, quer nas instituições em que tive responsabilidades.

Como profissional, compreendi que, para quem me procurava pedindo ajuda, o sofrimento era um absurdo. A dor, o sintoma, o funcionamento da sua família, do seu grupo profissional disfuncional… A necessidade de compreender, racional e emocionalmente, todo esse sofrimento, dando-lhe um sentido, era frequentemente uma prioridade.

Os modelos utilizados pelos terapeutas possibilitavam tornar compreensível o incompreensível, dar sentido ao que parecia não ter sentido.

Os modelos utilizados pelos terapeutas possibilitavam tornar compreensível o incompreensível, dar sentido ao que parecia não ter sentido. Assim, compreende-se também a necessidade expressa muitas vezes pelos clientes de um diagnóstico, mesmo que a este seja acrescentado que a etiologia é idiopática, a evolução é aleatória e o tratamento é sintomático. Passa-se a estar em terreno conhecido, a tensão baixa e torna-se possível imaginar alternativas.

Numa posição dita essencialista, o profissional tem um modelo de como o cliente — seja ele uma pessoa, um grupo, uma família, uma instituição ou mesmo uma comunidade alargada — deve funcionar. Todo o seu esforço e também a sua competência exercem-se no sentido de conseguir conduzir até esse funcionamento desejado. Para isso, terá estratégias e técnicas mais ou menos diretivas, mais ou menos soft ou hard. Em todo o processo, voltamos à centralidade do ato de dar sentido: um sentido dado exteriormente pelo técnico àquilo que, aparentemente, não tem sentido.

Os modelos são múltiplos, e é importante que, nessa multiplicidade, os clientes se possam rever no modelo escolhido e utilizado. A existência de fatores comuns fundamentais a todos os modelos é responsável pelos resultados positivos, salvaguardadas as questões evidentes éticas e deontológicas.

Para uma posição existencialista, o modelo não pré-existe: o cliente constrói-o progressivamente. O cliente vai dando sentido — o seu sentido — ao não-sentido a que estava confrontado. Com o cliente, o terapeuta constrói o dicionário e o universo de significados que darão sentido à sua vida. Um sentido que permita ultrapassar a crise, mas também que lhe permita construir estratégias de manutenção da sua homeostase ou da restauração da mesma em novas situações de crise.

Partimos da constatação de que existe no universo uma tendência para a complexificação. Carl Rogers chamava a esta Tendência Formativa, e ela insere-se bem no conceito que Edgar Morin posteriormente introduziu de Complexidade.

Esta complexidade vem desde o “ovo cósmico” que, após o Big Bang, permanece presente no universo e continuamos a observá-la mesmo num oócito humano. Esta complexificação tem um sentido. O seu locus de controlo é interno. Se, à partida, as potencialidades são diversas e imensas, elas precisam de certas condições para se atualizarem.

Este equilíbrio entre as potencialidades, as condições de atualização das potencialidades e os traumatismos que podem acontecer ao longo da existência — quer nas potencialidades, quer nas suas atualizações — vai marcar a história do desenvolvimento do “objeto” em questão.

Embora estejamos interessados, sobretudo, nas pessoas e nas comunidades, é fácil imaginar que este mesmo raciocínio se aplica a uma árvore ou até ao nosso planeta, traumatizado por um asteroide e reorganizando-se com a criação da Lua…

Como temos visto, há uma grande dificuldade para os sistemas em manter a homeostase — quer sejam, no nosso caso, pessoas ou grupos, mais ou menos grandes —, o que inevitavelmente leva a situações de instabilidade que se resolverão por crises ou lises.

Essas perturbações da homeostase reduzem o sentido coletivo mais ou menos unificado, quer por multiplicação de sentidos particulares, fragmentação ou não dos sentidos coletivos, quer por outros mecanismos múltiplos, mais ou menos conflituais. A grande fragmentação não conflitual pode significar um caminhar mais natural para a lise.

O reforço do sentido, da procura do sentido, do sentido perdido, parece ser uma perspetiva de metanoia em relação à resolução da crise.

Que sentido? O meu sentido? Um sentido exterior pré-existente ao qual vamos dar existência? Ou um sentido a construir e ao qual vamos dar essência/consistência?

Gostaria de dar três exemplos: um primeiro de um caso clínico de terapia individual, um segundo de um “caso” clínico organizacional de um hospital psiquiátrico e um terceiro de uma situação político-militar atualmente em relevo.

1. Caso clínico de terapia individual

Acabado de chegar ao hospital psiquiátrico, fora-me pedido para me responsabilizar pelo cuidado em psicoterapia de uma jovem mulher, sofrendo de perturbações alimentares profundas. Foi vista em reunião clínica de equipa, esquelética, com dificuldades de discriminação entre a realidade e o imaginário, dizendo que os seus intestinos tinham ficado na aldeia e mostrando-nos peles esvaziadas de conteúdo enquanto dizia:

“Vejam como estou gorda.”

A chefe de clínica explicou à senhora que passaria a recebê-la duas vezes por semana, uma hora para falar comigo, mas que era importante que falasse da sua infância, do pai, da mãe — mas não da alimentação.

Naquela situação de crise grave, que punha em risco a sua própria vida, o sentido era-lhe dado do exterior, e era expectável que ela o interiorizasse no processo da cura, dando sentido ao não-sentido da crise e do sintoma.

A formação que tivera em Lisboa, por pouca que tivesse sido, levava-me a respeitar a velocidade e a direção da cliente, que, durante os próximos três meses, só me falou de comida.

Durante as visitas da equipa, era admoestada severamente a não falar de comida e a falar da mãe e do pai, colocando-a numa situação de cada vez maior desconforto: entre aquilo que sentia como necessidade de exteriorizar e aquilo que lhe diziam que tinha de fazer, mas que não fazia sentido para ela.

Finalmente, um dia, exteriorizou no serviço que odiava a mãe. Sentiu uma culpabilidade tal que fez uma tentativa de suicídio, felizmente bastante inócua do ponto de vista do risco vital. Esse acontecimento levou a uma mudança no tratamento da instituição, com suspensão temporária da psicoterapia, manutenção no leito e introdução de eletroconvulsoterapia.

Posteriormente, retomou a psicoterapia, que continuou em ambulatório sem tratamento medicamentoso. Recuperou totalmente das suas dificuldades, tendo dado um sentido diferente — mas que era o seu — às dificuldades pelas quais tinha passado.

À crise, dera um sentido. Mas, dando também um sentido à sua vida, o seu sentido, sentiu-se depois capaz de continuar o seu caminho sem apoio, sabendo onde o encontrar se necessário. Nunca o procurou.

2. Caso clínico organizacional – Um hospital psiquiátrico em crise

Um pequeno hospital psiquiátrico público, com 65 camas, era responsável por uma população de cerca de 75.000 habitantes. Era um edifício antigo, que devia, a médio prazo, ser substituído ou integrado no hospital geral. O hospital era fechado, embora tivesse sete camas para doentes privados num outro edifício aberto. No hospital coexistiam doentes dementificados com outros com perturbações mais ou menos ligeiras.

A grande hierarquização do pessoal de cuidados, as condições difíceis de funcionamento e a proximidade de uma via de caminho de ferro, onde havia um histórico de suicídios, tornavam a instituição um local pouco “aprazível” para trabalhar e em crise.

Os doentes viviam ao ritmo mais conveniente para os colaboradores da instituição, levantando-se muito cedo e deitando-se muito cedo, jantando ao fim da tarde para que o pessoal pudesse ir a tempo para casa preparar o seu próprio jantar.

As portas estavam todas fechadas à chave para evitar que doentes dementificados se perdessem, impedindo-os assim de beneficiar dos excelentes jardins do hospital e também para evitar o perigo da linha de comboios próxima. Além disso, os doentes passavam os dias com umas blusas amarradas nas costas — o que não era bonito, mas “era prático”.

Propusemos a toda a “comunidade” transformar o hospital, passando a realizar regularmente reuniões comunitárias, quer setoriais, quer globais, para procurar o sentido que encontrávamos para a “nossa crise”.

Ao nível dos cuidados de enfermagem, tornou-se evidente que onze níveis hierárquicos para 27 colaboradores eram disfuncionais, fonte de conflitos e de entropia no sistema. Foi possível, à medida que o pessoal menos qualificado foi saindo, substituí-lo por pessoal mais qualificado e permitir a todos obter formação e qualificação fora da instituição, até ao melhor nível possível.

Ainda no que diz respeito aos cuidados de enfermagem, decidiu-se que os doentes, mesmo dementificados, passariam a ser tratados sempre pelo seu nome e vestidos normalmente todas as manhãs, numa enfermaria que passou a ser mista, com quartos individuais e refeições a horas mais razoáveis, após longas reuniões com os responsáveis da cozinha.

A grande mudança de paradigma na instituição foi a porta fechada. Em cada reunião comunitária global — com todos os doentes, pessoal de cuidados, médicos, trabalhadores sociais, pessoal de limpeza, todos sem exceção — o assunto voltava à discussão: qual era o sentido da porta fechada à chave?

O argumento da segurança dos doentes parecia ter mais peso, pelo menos aparentemente. Falava-se dos doentes que se podiam perder e por quem todos se sentiam solidariamente responsáveis.

Numa dessas reuniões, alguém teve uma ideia genial: se o problema eram os doentes que se podiam perder, porque eram diminuídos cognitivamente, porque não colocar duas maçanetas na porta? Assim se fez.

Desse dia em diante, cada vez que alguém, mesmo um doente menos afetado, via um idoso agarrado às maçanetas, pegava nele, ia dar uma voltinha ao jardim e voltava depois com ele para o hospital.

Demorou 20 anos para fecharem de novo o hospital.

A comunidade estava em crise, encontrou um sentido — a dignidade, ou talvez a liberdade — que permitiu ultrapassar a crise. Mas esse sentido perdeu-se aparentemente 20 anos depois.


3. Situação político-militar – Os Acordos de Camp David

Atualmente, vivemos de novo uma crise de enorme gravidade na mesma região do Médio Oriente onde o “Pregador” anunciava há cerca de 23-24 séculos que não há nada de novo debaixo do sol. De facto, ao longo da história, vários ciclos de crises mais ou menos violentas e devastadoras se desenrolaram nessa região.

Cerca de 500 anos antes de Cristo, Ciro II, um imperador da Pérsia (atual Irão), libertou os israelitas do exílio na Babilónia, reinstalou-os na terra da Palestina e ajudou-os a reconstruir o Templo de Jerusalém, onde agora se encontra a Mesquita do Domo e a Mesquita Al-Aqsa.

Dois mil e quinhentos anos depois, e até ser deposto pelos atuais governantes eclesiásticos, o xá do Irão, Reza Pahlavi, mantinha boas relações com a república israelita. Entretanto, quantas crises se sucederam? Qual o sentido para sair da crise? Ou qual a perda de sentido que corrói a homeostase e desencadeia a crise?

Carl Rogers, depois de procurar sentidos e desenhar testes para diagnosticar desajustamentos afetivos em crianças problemáticas, dedicou-se a observar processos naturais de crescimento e cura, bem como as condições necessárias e suficientes para que esses processos acontecessem.

Olhou com interesse um ciclo que se repetia na nova crise do Médio Oriente.

Há cerca de 3.000 anos, israelitas e palestinianos enfrentavam-se no campo de batalha, e os filisteus-palestinianos propuseram que, em lugar de uma batalha envolvendo todos os guerreiros, um só homem palestiniano, Golias de Gate, enfrentasse um só homem israelita. O escolhido por Israel foi David, que matou Golias.

Em 1978, estavam face a face Menachem Begin, o israelita, e Anwar Sadat, o egípcio, representando os palestinianos. No primeiro encontro, a morte de Golias não evitou uma mortandade entre os palestinianos, e era a continuação da morte e destruição que, desta vez, se queria evitar com a mediação do presidente Jimmy Carter.

Durante doze dias de negociações secretas, Carter recebeu em “sua casa” esses dois homens, em busca de um sentido que levasse à paz.

Esse encontro foi promissor e até coroado por Prémios Nobel da Paz.

Carl Rogers analisou este processo e destacou algo essencial: a experiência de Camp David teve muitas das qualidades de um processo terapêutico de grupo. Carter, apesar de ser persuasor, agiu como facilitador da comunicação entre os dois lados.

No final, os dois líderes, antes profundamente hostis um ao outro, terminaram o encontro a abraçarem-se diante das câmaras de televisão. O processo de mediação permitiu que encontrassem um sentido comum que possibilitasse a paz.

Mas, como diz o novo Pregador, é difícil manter a homeostase, sobretudo quando não há consenso sobre o senso, nem paciência para o encontrar.

Sadat, o negociador dos Acordos de Camp David, foi assassinado por opositores à paz. Rabin, o negociador dos Acordos de Oslo, teve o mesmo destino, morto por um extremista israelita. E o ciclo recomeçou…

Os antigos Pregadores já diziam: a homeostase é difícil de manter e o que foi será.

A monarquia persa, que durou 2.500 anos, foi substituída por uma teocracia. O sentido dado pelo humano à sua história perdeu-se numa luta entre visões absolutas e conflitantes.

Os wargames regressaram em escala real. Agora, acompanhados por drones, mísseis balísticos e caças de quarta geração. A ameaça nuclear paira no horizonte, e o universo continuará na sua atualização das potencialidades com o seu sentido — um sentido que poderá escapar, definitivamente, à loucura dos homens.


Reflexão final

Devemos ser pessimistas? Não forçosamente.

Embora seja possível manipular multidões para destruições em massa, dando-lhes sentidos externos, ideais e ideologias utópicas, a metanoia é sempre individual. A procura de sentido é sempre pessoal, e pode alargar-se a pequenos grupos, mas tem de passar, individualmente, pela experiência de cada um.

A educação, a terapia e o cuidado da saúde são campos de excelência para facilitar essa procura de sentido. Como dizia o Pregador:

“Não há nada de novo debaixo do sol.”

Mas temos de guardar a abertura ao espanto. O contrário é Tanatos e, eventualmente, Nirvana.